Hoje em dia, qualquer pessoa que possui mais de 1.000 followers no Twitter, mantenha um blog por mais de um ano e já tenha trabalhado para alguma marca pode se auto-proclamar um “especialista em mídias digitais”.
Eles estão aí, aos cântaros, pipocando e vendendo um peixe que nem sempre é tão profissional assim.
Claro: existem várias pessoas que dominam esse conteúdo, e podem cobrar – e cobrar caro – pelo conhecimento que detêm.
Ao mesmo tempo, vário novatos estão se aventurando num terreno complexo. E muitas vezes, com o consentimento da própria empresa, que contratam um estagiário e o deixam coordenando Twitter, Facebook e Blog. Já que ele é da Geração Y e sabe mexer nessas coisinhas.
Complicado, não?
Sou um liberal por natureza. Acredito no livre mercado. Nada de protecionismo. Quem sabe fazer, que faça.
Agora, é notório que muitas marcas estão gerindo mal suas plataformas. E acho que este é um dos furos.
Na minha opinião (e aí, você pode discordar ou concordar, o mundo é livre), um especialista em mídias digitais têm que reunir uma série de qualidades. Que não são da noite para o dia que você adquire.
Vou listar apenas algumas das skills que julgo necessárias. De novo: você pode concordar ou não, e não tem problema nenhum nisso. Essa ainda é uma profissão em formação. Existem muito mais dúvidas do que certezas.
Também não acho que um EMD (Especialista em Mídias Digitais) precise de TODAS essas características. Se a Internet é um sistema dinâmico, seria anacrônico enxergar por uma ótica cartesiana.
1) Entender a história da internet: o passado, o presente e o futuro
Os protocolos de convivência da internet, também chamados de “O comportamento do usuário nas mídias sociais”, têm origem direta na forma como a rede foi construída. Os fatores tecnológicos são a base dos fatores humanos.
2) Entender o protocolo criado pela Revolução Digital do ponto de vista técnico e sociológico
Acredito que muitos EMDs dominam a parte ferramental, das novas tecnologias que surgem. Mas nem sempre essas pessoas conseguem mergulhar no que mais importa, que é: o impacto sociológico que a Revolução trouxe.
3) Ir muito além do “crowdsourcing” e “poder das massas”.
Toda hora surge um termo novo. Snack Culture, Storytelling, Engagement e por aí vai. Muitos desses temas são sobreposições. Temos que tomar cuidado para não usarmos palavras novas para dizer exatamente as mesmas coisas que estavam sendo ditas anteriormente.
4) Acompanhar as mudanças
Tudo acontece muito rápido. A cada dia, surge uma nova rede social. Qual vai pegar? Qual é fogo de palha? O que é o Promoted to Twitter? Você é beta tester do Google+? Por que o Facebook tem tanto rolo com privacidade? Esses questionamentos fazem parte, ou deveriam fazer parte, do dia-a-dia de um EMD.
5) Estudar
Muito do que se aprende sobre mídias sociais se aprende na marra, fazendo, executando. Mas há uma vasta bibliografia que ajuda, e ajuda muito, a entender esse novo universo.
6) Não ter medo de errar.
A internet é beta. Então, saber criar riscos calculados é um dos talentos que eu julgo mais importante num EMD.
7) Ter capacidade de gerar teorias próprias
Este e o próximo item são parecidos, mas não iguais. Então: ser um simples consumidor do que os outros EMDs dizem é meio que ser um papagaio dos formadores de opinião. O legal é ter poder de análise, conseguir conectar pontos que nem todos estão vendo e formular, a partir daí, uma visão particular. Isso é o que dá valor ao seu trabalho.
8 ) Ter capacidade de desenhar cenários futuros
O grande valor de um profissional é ter a capacidade de antecipação. Então, acredito que um EMD que não consegue prever cenários, muitas vezes, trabalha apagando incêndios, em vez de evitá-los.
9) Dominar as ferramentas mainstream
Existe uma certa ditadura do hype entre os EMD. Um papinho meio chato de que o Facebook está Orkutizando. Pois é: no Brasil, o cara que não usa Orkut está virando as costas para a rede mais popular no país. Tem que saber o que é cool? Claro. Mas não pode largar o osso do mainstream.
10) Entender de comunicação
Hoje, todos nós sabemos que a internet não é uma mídia. É muito mais. Mas, inicialmente, ela foi entendida assim. O fato é que a internet TAMBÉM é uma mídia. Por isso, entender de comunicação (não confunda entender de comunicação com ter um diploma em comunicação) é fundamental. Sem falar no óbvio: alguém que vai gerenciar os canais com o consumidor, vai FALAR com os consumidores em nome da marca. Tem que ter a manha, né?
11) Ter história
As novas gerações, que nascem praticamente dentro de um computador, têm muito a nos ensinar. Esse é um exercício de humildade que eu faço diariamente. Mas nós não podemos ser ingênuos e achar que os nativos digitais sabem tudo. Até porque, boa parte do dia-a-dia de um profissional de dessa área é comum a qualquer outra profissão. Por isso, acredito que um EMD não nasce do nada. Ele precisa ter lastro.
12) Ter carisma digital
Acredito que um EMD não é, necessariamente, um Geek. Mas o cara tem que ter, no mínimo, carisma digital. Ele tem que absorver tudo isso de forma natural, não com sofrimento.
13) Ter referências
Explicar através de exemplos é sempre uma ótima forma de fortalecer o nosso ponto de vista. Um EMD deve ter repertório, já que essa é uma área nova e, muitas vezes, o exemplo ao lado é o melhor aprendizado que podemos ter.
14) Ter criado material autoral com relevância na web
Os fenômenos de cultura popular estão nascendo, cada vez mais, da Internet. Quem já fez algum webhit parece ter mais autoridade para discutir, em alto nível, o que faz sentido no consumo de conteúdo. Sem falar que esses caras, em geral, já controlam uma audiência própria. E esse trabalho de gerenciamento talvez seja a skill mais importante que se possa exigir.
15) Ter respeito de membros da rede
Muito ouvir falar do termo panelosfera – que talvez já esteja até bem datado. Existe sim um grupinho que se auto-referencia na internet e que se protege. Mas esses caras sabem reconhecer novos talentos, têm olho clínico para ver quando alguém vai explodir e, como passam muito tempo conectados, são impactados por quem estiver fazendo um trabalho relevante. Se eles já ouviram falar de você, ótimo. Bom sinal.
16) Ter perfis nas redes sociais com métricas relevância nas ferramentas de análise
São trihões de ferramentas usadas para medir a sua importância na Internet. Mas eu gosto muito da Família Grader (BlogGrader, FacebookGrader, TwitterGrader e WebsiteGrader), que chegaram até mim pelo Dan Zarella, um dos maiores estudiosos de mídias sociais no mundo.
17) Ter referências multidisciplinares que façam você olhar muito além da internet
Um cara que só vive a internet tem uma capacidade muito limitade de análise. Os grandes pensadores, em geral, são pessoas que vivem experiências multidisciplinares e têm conhecimento em mais de uma área. É o cruzamento desses conteúdos aparentemente desconexos que torna o contexto mais rico.
18) Saber discutir qualquer um desses itens com uma autoridade
Bancar o espertão com um leigo, beleza. Agora, difícil é sentar numa mesa de debatedores e não arrepiar em meio a outros especialistas.
19) Saber explicar qualquer um desses itens para uma pessoa que nunca ligou um computador
Eu acredito que um picareta é aquele cara que fala, fala, fala, fala e ninguém entende nada. Ele não tenta facilitar, digerir, mastigar o conteúdo. Ele tenta tornar o mais complexo possível para sair por cima e parecer superinteligente. Se você vir um desses caras, cuidado. Ele pode estar aplicando pra cima da sua marca.
20) Saber mudar de opinião
Só uma pessoa que nasceu sabendo tudo não muda de opinião. E como eu acredito que nenhum EMD nasce com esse predicado, o cara tem que saber rever os seus pontos de vista. Não pode se ter uma visão dogmática. Veja o caso do Refresh, que fez a Pepsi despencar para o terceiro lugar do mercado. Será que isso não é um indicativo?
21) Gostar de co-autoria
Esse negócio de ficar colocando a culpa no cliente (”eu proponho ideias, mas os caras nunca aprovam”) é um raciocínio muito infantil. Se você tem boas ideias, ótimo. Mas saber aprová-las com consistência é parte do seu trabalho. É sempre mais legal ser co-autor de algo brilhante que autor solitário de algo comum.
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Buenas, espero não gerar muita polêmica com este post. A ideia é abrir a discussão e ver se mais gente pensa como eu. Como falei: não é uma ciência exata. É um mercado que está nascendo, que ainda gera muitas incertezas e, por isso, não podemos ser obtusos em nada.
Agora, isso não significa que temos que entregar a gerência das nossas plataformas digitais para o primeiro cara que aparecer.
By Tiago Mattos, Diretor de Whatever da Perestroika.
Fonte: http://www.perestroika.com.br/2011/07/04/o-especialista-em-midias-digitais/